sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

O fim do Mundo que nos desapontou e os idiotas que nunca nos falham

Estive aqui muito quentinho à espera que o Mundo acabasse para ver se poupava numas chamadas telefónicas. Mas não. Lá telefonei pontualmente a amigos e amigas a desejar um santo Natal que, tal como o fim do Mundo, é só quando Deus quer, e não quando quiser ou um palerma qualquer com a mania dos Maia. Soube-me bem telefonar. Infelizmente e visto ser sobrevivo, tive que aturar a vil e apagada tristeza da vida política e jornalística portuguesa que ficou também preservada.

Às 13 horas, vi um telejornal da SicNotícias verdadeiramente rasteiro e miserável, todo ele guiado pelo firme propósito de destacar as vociferações de bloco de esquerda e PC sobre a TAP, e tornar a posição do governo absolutamente incompreensível. Os jornalistas lá continuaram a falar de garantias, como se o governo fosse tonto e Efromovich tivesse faltado com algum papelinho carimbado. E teve grande destaque António José Seguro, a quem (na falta do genuíno desejado dos media, Costa) lá vai recebendo tempo de antena. Seguro veio protagonizar um número que talvez passasse numa audição para o circo (não o do Soleil, não exageremos; alguma coisa mais modesta). É que a posição de Seguro é admiravelmente contorcionista. Vejamos: Seguro é o líder do partido que se obrigou perante União Europeia, FMI e Banco Central Europeu, em acordo negociado e subscrito por ele, Partido Socialista, a privatizar a TAP até fim de 2011 (de 2011, não há gralha). Seguro vem defendendo, porém, que a TAP «é de bandeira», e do coração, e não devia ser privatizada (sem nunca explicar, já se vê, o que se faria de uma empresa aérea com 1,5 mil milhões de dívida e frota envelhecida). Agora, que a TAP não foi privatizada -- porque o Governo foi prudente, e julgou que Efremovich, embora apresentando uma boa proposta em termos técnicos e estratégicos, não demonstrava capacidade financeira para cumprir pontualmente e a tempo as prestações e os investimentos a que se obrigara -- agora, Seguro vem reclamar num arremedo de voz grossa explicações do Governo por não ter privatizado a TAP, e proclamar que a não privatização da TAP foi «uma derrota», tal e qual como leu no Público de hoje, ou, então, o Público de hoje leu nele.

E eu, que já tinha esquecido que estivera aqui muito quentinho à espera que o Mundo acabasse, voltei a sentir incontidas ânsias por algum meteoro tresmalhado que os parta.

publicado por José Mendonça da Cruz

Sem comentários: