quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Um discurso razoável e sólido

Com irritação e pressa, pareceu-me, à primeira vista, que o discurso de ano novo do presidente da República se contorcia de desejos de acertar uma no cravo, outra na ferradura. Mas eram pressa e irritação minhas excessivas. Parece-me, afinal, o discurso muito bom. E parece-me que merece justiça.
Cavaco recordou as dificuldades de 2012 e a continuação das dificuldades em 2013. E sublinhou a necessidade de «urgentemente pôr cobro a esta espiral recessiva» ou «ciclo vicioso» de menores rendimentos, menores prestações sociais, mais falências, mais despedimentos, mais austeridade. Fez bem em sublinhar, como fez bem em sublinhar a necessidade de crescimento económico.
O PS diz, a propósito, que o governo ficou isolado. Mas engana-se. Não é o PS, é o governo, o presidente e, aliás, toda a gente que defende a necessidade do crescimento económico. Só que nem presidente nem governo querem crescimento nos termos em que o entende o PS, nos termos da vulgata de Keynes-para-idiotas seguida por Sócrates, e que nos trouxe direitinhos à emergência.
Mais lembrou Cavaco que a progressão da dívida externa é insustentável, que o défice tem que ser corrigido; e mais lembrou que as medidas de austeridade actuais são as necessárias ao abrigo do Acordo de Entendimento; e mais lembrou ainda que o Acordo e a ajuda externa foram tornados necessários pela política do anterior governo; e mais lembrou logo que o Acordo foi assinado por partidos que representam 90% dos deputados da Assembleia da República.
Arménio Carlos chama a Cavaco, por isto, «cúmplice». Mas não é cúmplice. É solidário, ao contrário do que julga o PS. E é sério, como tanto dói ao chefe da correia de transmissão de menos de 10% do eleitorado.
Insistiu ainda o presidente da República em que o incumprimento das obrigações internacionais ou a renegociação da dívida não nos deixariam melhor, deixar-nos-iam pior. Que o PS considere, após ouvir isto, que o governo está isolado, é pura matéria de pasmo.
Cavaco subscreve o OE2013 sem dúvidas? Não. Tem «dúvidas fundadas». E faz bem em submetê-las ao juízo do Tribunal Constitucional. O que seria insuportável seria o Orçamento estar perante a constante e prolongada ameaça de contestações casuísticas.
PCP e Bloco de Esquerda chamam «inconsequente» a Cavaco por promulgar o Orçamento enquanto tem dúvidas. Mas não é inconsequente. É previdente e responsável, ao contrário das propostas do Bloco e dos comunistas.
Cavaco apelou ao consenso e ao diálogo, instou o governo a reconquistar a confiança dos Portugueses (porque a das instituições internacionais não basta), e a procurar novas vantagens junto dos parceiros europeus, por terem mudado as condições desde a assinatura do Acordo de Entendimento. Fez bem. O governo precisa de fazer mais política, cá dentro e lá fora. Precisa muito de fazê-la e nunca é demais insistir com este governo que não a faz para que a faça. Mas Cavaco acrescentou que seria fatal juntar uma crise política à crise financeira e económica. A isto, socialistas e comentadores/jornalistas da filiação chamam ser «salomónico». Mas não é. É apenas não ser parcial e cego.

publicado por José Mendonça da Cruz

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