quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

MIRANDISMOS

Nunca me veio à cabeça imaginar por que carga de água é que a estimável criatura que dá pelo nome de Jorge Miranda há-de ser considerada “pai da Constituição”. Um mistério entre os muitos que pululam a nossa vida política. Facto, porém, é que esta “verdade”, milhares de vezes repetida, passa a verdade mesmo. Lá dizia o Lenine, como é do conhecimento geral e, pelos vistos, como é aceite pelos nossos mui sábios media.

Se eu fosse ao homem pintava a cara de preto. Se eu fosse à Constituição, tinha vergonha do meu pai.

São conhecidas as melodramáticas circunstâncias em que a Constituição foi feita. Coitada, vítima do PREC, da vigilância militar, coisa que, mesmo democrática, como hoje se imagina ao olhar – horribile visu! – ou ouvir os gurus do tempo, como um tal Vasco Lourenço, nunca passou de socialista. Tudo bem. Democracia, OK. Desde que seja socialista. A chamada revolução tinha deixado de ser comunista, mas passara a ser “só” socialista. A Constituição saíu deste caldo de cultura, prolixa, paradoxal e injusta, um programa ideológico em vez de uma lei fundamental. E o Miranda que não nega a paternidade nem vem dizer que não, que não façam dele tai de tal coisa. Defensor, talvez. Paladino. Cavaleiro ao serviço da dama. Mas, que diabo, tanto tempo passado, não seria de esperar, aceitando como verdadeiras a inteligência e o saber do homem, que lhe desse na pinha algum senso crítico? Não. O homem defende a filha, tão mal tratada, diz ele, pela crise e pelos que querem sair dela. O homem é firme. O que a filhinha diz é para ser respeitado no mais estrito dos sentidos. Nada de interpretações, nada de resolver seja que problema for, se tal beliscar, por pouco que seja, a fímbria das vestes da criatura! Se assim não for, ó desgraça, a malandragem que por aí anda é capaz de me retirar o título de “pai”! Título que ouço por aí, que não merecerei mas me agrada tanto!

Miranda, do ponto de vista constitucional, é o que se pode chamar um reaccionário empedernido, um intelectual mentalmente tetraplégico.

Mas... a “verdade” é o que aparece. No jornal de ontem, em grandes parangonas, as exigências do Miranda, que o PR tem que mandar o orçamento para o Tribunal Constitucional - a fim, é claro, de ficarmos sem orçamento - que isto não pode ser (o Miranda deve ter alguma mina de ouro para tapar o buraco, mas não diz nada a ninguém), que há dúvidas formais e materiais, leia-se ideológicas, que, que, que.

Bom, isto era a parangona. A seguir, no texto da “notícia”, vínhamos a saber, certamente por amor à “verdade” jornalística, que o Miranda era um dos opinantes numa sessão qualquer, onde até havia pelo menos um, com “galões” paralelos, que dizia exactamente o contrário da mirandal opinião. Mas, para esse, nada de parangonas. Duas linhecas lá para o fim da “notícia”, como se de um figurante se tratasse, num filme em que a estrela era o Miranda.

É isto a “informação” que temos. Quem não tem tempo para mais fica-se pelas parangonas. Não é isso o que interessa?


António Borges de Carvalho









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