sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O Sr. P.


    
                            
O Sr. P. tem passado.

Nasceu pobre. Quando novo trabalhava arduamente no seu terreno, pouco extraíndo de uma agricultura principalmente de subsistência. Depois de também se dedicar à pesca, descobriu finalmente no comércio uma forma de enriquecer, vendendo aos vizinhos produtos cobiçados que comprava ou produzia noutras localidades, cujo acesso fácil só ele conhecia. Depois aconteceu o que normalmente acontece: os vizinhos descobriram-lhe o segredo e, sendo mais fortes e industriosos que ele (que gastara os lucros obtidos em artigos de luxo ou simplesmente desbaratando-os), cedo ou tarde aabaram por lhe roubar o exclusivo até quase o expulsarem de lá.

Já velho, sem forças, largou o comércio e abandonou os terrenos entretanto adquiridos, deixando-os a vizinhos poderosos ou ao deus dará.

Voltou-se, então, para o pequeno pedaço de terra natal. E que fez? Irrealista (quase parecendo senil), pedia dinheiro emprestado para multiplicar caminhos para lado nenhum e plantar flores de enfeite (principalmente cravos, primeiro, e rosas, depois) que contemplava, deleitado. Almoçava quase sempre fora, dava festas, comprava sempre o último grito da moda, para tanto usando o generoso plafond do seu cartão de crédito. Como tivesse dificuldade em pagar as crescentes dívidas, arranjava novos cartões para pagar os juros que entretanto iam caindo.

Até que chegou o dia em que os credores deixaram de lhe emprestar dinheiro como dantes, avisando-o de que só o voltariam a fazer, impedindo-o de cair na mais absoluta miséria, se o Sr. P. reduzisse - e muito - os repastos no restaurante, aceitasse substituir o roseiral por árvores de fruto e outras produções mais rentáveis e, finalmente, apertasse uns bons furos no cinto que se habituara a não usar.

E assim chegamos ao presente, em que o Sr. P. tem de escolher entre encarar as suas dificuldades com coragem e como uma oportunidade para mudar de vida ou, então, a não pagar o que deve, condenando-se a regressar a uma existência, quando muito, de subsistência.

Terá o Sr. P. futuro?

Espero bem que sim, a pensar, principalmente, nos seus filhos. Nos nossos.

publicado por Rui Crull Tabosa

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