Espanha desincentiva energia eólica
Uma das reservas que me levanta o novo plano energético para Portugal tem que ver com a forte possibilidade de Espanha rever a sua política e reapostar no nuclear. Creio que a questão não é "se" mas "quando" isso irá acontecer. Espanha tem um problema gravíssimo com um défice tarifário cerca de dez vezes superior ao português para um consumo eléctrico cerca de cinco vezes maior. E numa altura em que as agências de rating "atacam" a qualidade da dívida espanhola e no clima de todas as convulsões financeiras na Europa urge conter este défice.
Mesmo que não seja com nuclear, Espanha terá de diminuir produção especial em favor de produção ordinária para baixar custos de geração. Com uma produção cinco vezes maior do que a nossa o digrama de cargas ibérico vai alterar-se, o custo no MIBEL também. Não digo que seja inevitável acontecer o mesmo por cá mas no MIBEL nórdico, o Nordpool, em que existe um país de produção inferior e muita eólica (Dinamarca) e dois países com mais produção e quase toda ordinária (Noruega e Suécia) a base de licitação do mercado é de €-20/MWh.
Racional seria Portugal parar imediatamente adição de mais potência renovável e renegociar a remuneração da existente. Como é uma medida radical sugeri, pelo menos, baixar as tarifas de novos contratos para valores que reflictam os actuais custos de produção (€55/MWh eólica e €170/MWh fotovoltaica). Também devia haver ajustes na restante produção especial. E considero que os incentivos à microgeração e mini-hídrica deviam acabar desde já por uma questão de justiça social.
Mas hoje o Ecotretas revelou que Espanha vai cortar unilateralmente os subsídios à produção eólica, cerca de 40% do valor actual. A atribuição passa a ser de apenas €55/MWh (o valor que calculei como justo), durante 12 anos ao invés de 20 e para 1.500h/ano no lugar de 2.100! Naturalmente a Asociación Empresarial Eólica (AEE) prevê que, da potência prevista instalar até 2015, só 12% venha a ver a luz do dia. Ou seja, Espanha foi mais longe do que aquilo que o governo português diz ser possível em Portugal ou até daquilo que sugeri. Não tenhamos ilusões, em Espanha a sentença de morte da energia eólica foi decretada.
Não deixo de ficar impressionado com o ritmo dos acontecimentos no sector eléctrico ibérico. Escrevi, quando construi os cenários de 2 e 3 reactores de 1.600 MW em Portugal, que essas possibilidades devem ser coordenadas com Espanha para haver escala para gerar economias e capacidade de gestão. Não me preocupa essa necessidade pois sempre achei que Espanha ia liderar o processo. Creio que essa mudança se inicia precisamente com este corte nos incentivos à eólica espanhola.
Relembro que quando a Holanda fez um corte de 40% nos incentivos à eólica anunciou simultaneamente um programa nuclear.
Publicada por Bruno Carmona

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