segunda-feira, 7 de novembro de 2011

DO FIM DA CIVILIZAÇÃO SCUT

Uma pequena história portuguesa. Verdadeira, mas que se pode tomar por fábula.

Havia um homem que, com imaginação e talento, construíra um razoável império económico. Tinha pegado numas indústrias arruinadas pelas loucuras da revolução, relançara-as, e ganhava bom dinheiro. Tinha umas centenas de empregados, relativamente bem pagos e satisfeitos.

Um dia, chegada a moda dos computadores e da net, o nosso homem montou, num quartinho lá do escritório, uma espécie de sala de dealing, onde um truta qualquer se dedicava a operações financeiras, ligado a Nova Iorque, Tóquio, Frankfurt...

Depressa tais operações tomaram corpo na cabeça do nosso homem. Ganhava quase tanto no quartinho como nas suas indústrias. Pagava ao truta, e pronto. Quase não havia despesas e, com algum bom senso, a coisa dava, e dava bem.

Um dia, apareceu-lhe uma empresa “nacionalizada nossa”, a oferecer uma sonora maquia pelas suas indústrias. O homem exultou. Ia passar de rico a multimilionário!

Alguém do seu inner circle o aconselhou a não vender, ou a vender só metade. Veja você, disse-lhe, que a indústria é o que o mantém na vida económica, é o que o liga à realidade palpável, ao que, afinal, sustenta e justifica os seus investimentos financeiros.

Nada feito. O cash venceu. O nosso homem passou a ter só dinheiro, o conselheiro deixou de ser preciso, o truta foi aumentado, a vida continuou.

Anos passados, a empresa “nacionalizada nossa” passou a elefante branco do regime e o milionário não sabe o que há-de fazer ao dinheiro, para além de o ver desaparecer em operações falhadas. Pensa voltar a produzir alguma coisa, mas é tarde. Os anos passaram, ele já não tem nem estaleca nem know how para se meter noutra, nem tempo para apanhar o comboio outra vez.

Mutatis mutandis, é mais ou menos o que se passa com o chamado primeiro mundo. Atolado em serviços, especulações e ilusões, o primeiro mundo esqueceu o primário e o secundário, como se estes fossem o décor que as transacções e os investimentos financeiros proporcionavam, isto é, pondo as coisas de pernas para o ar.

Ao mesmo tempo, as regalias de vida que o primário e o secundário tinham permitido criar transformaram-se em “direitos sociais”, ou seja, os habitantes foram levados a achar que viviam num mundo “scut” e que os Estados, ainda que cobrando impostos, taxas e “contribuições”, eram uma espécie de deuses que não podiam falhar nem tinham um deve/haver, à la limite igual ao de cada um.

Durante umas décadas, a superioridade científica e tecnológica do primeiro mundo manteve a capacidade de funcionamento do sistema. Mas a globalização, por tantos idiotas acusada de ser uma manobra do primeiro mundo para explorar o terceiro, provocou fenómenos globais inevitáveis e de sinal contrário.

O terceiro mundo produzia mais barato. Guardada que fosse a superioridade tecnológica, o primeiro mundo acreditou que deixava de precisar de trabalhar em actividades “menores”: imaginaria, investigaria, inventaria, inovaria, investiria, e daria aos demais para produzir, comprando-lhes um produto final onde as mais valias realmente importantes eram suas e pagas à cabeça. O resto era mão-de-obra, mal paga e sem “direitos sociais”. Daí as deslocalizações, as joint ventures e as inevitáveis transferências de tecnologia. Resultado: em meia dúzia de anos, o terceiro mundo passou a ter tecnologia própria – como, no pós-guerra, sucedera com o Japão – os fluxos de capitais mudaram de direcção e as mais valias sumiram-se. O dinheiro tinha migrado. Os “direitos sociais” já não tinham cobertura. O capitalismo tinha deixado de ser liberal. Mas as suas incontornáveis regras continuaram a funcionar, já não a bem dos povos, mas contra eles.

A saída foi a anti-liberal corrida ao dinheiro, isto é, o esquecimento das tais incontornáveis regras, a primeira das quais é a de que o dinheiro, ou corresponde aos bens que se produz e é fruto deles, ou vai embora.

Em vez de o recriar, o primeiro mundo entrou em espiral financeira. Acusado de ser “liberal”, passou a “social”. Começou a distribuir dinheiro sem se dar conta que jamais o recuperaria, já que o colocava em mãos que produziam menos que o que deviam. Passou a viver-se como se houvesse almoços grátis. Mas não havia, nunca houve.

Os cidadãos, esses, ficaram entregues às suas ilusões e aos seus “direitos”. Continuaram – e continuam! - a achar que “alguém há-de pagar”. Pior, continuaram convencidos que o que pagavam ao Estado lhes podia ser devolvido com juros, o contrário do que passou a suceder. O Estado não só nem em singelo devolve como gasta mais de metade para se auto sustentar.

O mundo scut acabou.

A realidade, longos anos disfarçada, veio ao de cima. Agora, há que começar de novo. Bater no fundo, tomar balanço para voltar ao de cima. Acreditar no renascimento da Fénix. Fazer das tripas coração.

O resto é cantarolar de ideólogos, de demagogos, de tecnocratas falhados e de políticos pataratas.

Com a razão da moda e do “correcto”, chamem simplista ao IRRITADO. Depois queixem-se.

António Borges de Carvalho

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