quinta-feira, 8 de maio de 2008

A situação do lobo na Serra da Aboboreira: resultados do Projecto LOBO, um Projecto de Educação Ambiental

Fig. 1 - Localização da Serra da Aboboreira (autoria: Clara Grilo, in Nunes, M. (Coordenação). (2004). Serra da Aboboreira - a Terra, o Homem e os Lobos. Câmara Municipal de Amarante. Amarante. pp.148)
Tabela 1 - Distribuição temporal dos Índices Quilométricos de Indícios de Presença de lobo na serra da Aboboreira (Outubro de 2002 - Setembro de 2003).
O Clube de Ambiente e Exploração da Natureza da Escola EB 2,3 de Vila Caiz avaliou a situação do lobo na Serra da Aboboreia, onde existe a provável última alcateia do Distrito do Porto, obtendo resultados muito importantes para a sua conservação. Manuel Nunes (texto e fotografia)** e Jorge Nunes (fotografia)
Nos primórdios do século XX, o lobo-ibérico (Canis lupus signatus Cabrera, 1907), era ainda comum em todo o território nacional. São relativamente abundantes os testemunhos escritos, particularmente na imprensa da época, que atestam a ocorrência da espécie em regiões onde, presentemente, se encontra extinta, ou com efectivos reduzidos, como é o caso da serra da Aboboreira, uma área montanhosa repartida pelos municípios de Amarante, Marco de Canaveses e Baião, e adstrita ao maciço montanhoso Alvão/Marão, do qual constitui o extremo sul (Fig.1). A este propósito, refira-se o estudo pioneiro de Eric Flower (Flower, 1971), elaborado com base em notícias da imprensa da época, que dá conta para a região da serra da Aboboreira e vertente ocidental da serra do Marão, do avistamento de 387 lobos, e do abate de 13 animais. No entanto, e tal como refere o autor, os números relativos a avistamentos sofrem uma regressão acentuada a partir dos meados da década de 1960, agravando-se a situação no decurso das décadas de 1970 e 1980 (recorde-se que só em 1988, o lobo passa a gozar do estatuto de protecção legal com a aprovação da Lei de Protecção do Lobo Ibérico), altura em que o acesso generalizado às armas de fogo como complemento de outras formas de extermínio já em prática (venenos e armadilhas), a construção de novas redes viárias, a destruição dos habitats e a progressiva humanização de muitas áreas limítrofes deste maciço montanhoso, acentuaram a pressão sobre o lobo, diminuindo consideravelmente as suas populações. Com efeito, exceptuando, alguns prejuízos esporádicos comunicados ao Parque Natural do Alvão entre 1991 e 2002, os registos relativos à presença de lobo na serra da Aboboreira eram, até à data do início deste projecto, praticamente nulos. Foi com base nestes pressupostos – a ausência quase total de referências sobre o lobo na serra da Aboboreira e, por isso, a necessidade de aprofundar os conhecimentos, nomeadamente no que à actual distribuição e densidade demográfica da população lupina local diz respeito – que o Clube do Ambiente e Exploração da Natureza (CAEN) da Escola EB 2,3 de Vila Caiz (Amarante) decidiu levar a efeito, ao longo do ano lectivo 2002-2003 e parte do ano lectivo 2003-2004, um Projecto de Educação Ambiental: o Projecto LOBO***. O projecto, que envolveu 10 alunos do 9º ano de escolaridade, e se prolongou por 12 meses de trabalho de campo, entre Outubro de 2002 e Setembro de 2003, versou duas linhas de investigação:I) a primeira, teve como base a realização de 40 inquéritos à população adulta de cinco aldeias da serra da Aboboreira (Tolões, Carvalho de Rei, Aldeia Velha, Aldeia Nova e Travanca do Monte), com o objectivo de recolher informações sobre a presença/distribuição do lobo na região da serra da Aboboreira; II) a segunda, desenvolvida na área do planalto central (800/900 metros de altitude), e vertentes nordeste, este e sudeste (600/700 metros de altitude) da serra, voltadas, respectivamente, ao extremo sudoeste da serra do Marão, ao vale do rio Fornelo e à vertente oeste da serra do Castelo, teve como objectivo, através da análise com base na pesquisa e quantificação através de Índices Quilométricos de Indícios de Presença de lobo, como sejam dejectos, rastos e esgravatados, determinar a distribuição e densidade populacional lupina na serra da Aboboreira, e o regime de ocupação das áreas vitais (indícios de reprodução e/ou detecção de locais de criação). Relativamente à primeira linha de investigação, os inquéritos foram realizados aleatoriamente a uma amostra de 40 adultos, (17 do sexo masculino e 23 do sexo feminino) com idades compreendidas entre os 35 e os 90 anos, residentes nas cinco aldeias-alvo e provenientes daquelas ou de outras povoações na área de influência da serra da Aboboreira. A amostra representa aproximadamente 8% da população residente no conjunto das cinco aldeias. Dos 40 indivíduos inquiridos, apenas 22% se dedica à pastorícia. Destes, a maioria possui rebanhos com menos de 18 cabeças de gado, embora na área de estudo ocorram rebanhos de caprinos e ovinos com mais de 200 animais. Em cerca de 55% dos casos, o gado é apascentado na serra, sendo acompanhado pelo pastor, geralmente com 1 ou 2 cães que, no entanto, apenas em 10% das situações, são de grande porte – tipo mastim. Nos restantes 45% dos casos, o gado, encontra-se estabulado, ou é apascentado em terrenos cercados. Nesses casos, os cães são, quase sempre, inexistentes. Relativamente à relação que as populações mantêm com o lobo, e tendo em conta que a maioria dos inquiridos frequenta habitualmente a serra no decurso da sua actividade diária (43% dos inquiridos frequenta a serra diariamente; 30% semanalmente; 15% mensalmente; e 12% de forma irregular ao longo do ano), todos os inquiridos revelaram já terem avistado lobos na Aboboreira. O local desses avistamentos varia, mas os três lugares que concentram o maior número de avistamentos situam-se em áreas despovoadas, apenas frequentadas por pastores ou pessoas em trânsito. De acordo com os inquéritos, são escassos os avistamentos recentes de lobos (Fig.2). Apenas 15% dos inquiridos afirma ter avistado lobos nos últimos 4 anos, e desses, apenas 13% terão visto lobos ao longo do último ano (2002). A maioria das pessoas afirma já não ver lobos há muitos anos, localizando-se a barreira temporal para o decréscimo dos avistamentos entre o final da década de 1980 e os meados da década de 1990. Antes desse período, os inquiridos referem avistamentos abundantes, que incluíam, frequentemente, grupos de lobos com 3, 4 e 5 animais adultos, havendo inclusive 15% de inquiridos que menciona avistamentos de grupos com mais de 5 indivíduos adultos. Com efeito, tendo em conta os dados relativos às dimensões dos grupos de lobos observados durante as décadas de 1950, 1960, 1970 e 1980, na serra da Aboboreira, é possível verificar que, a partir da década de 1980, altura em que se verifica o maior número de observações de lobos, é notória a redução da dimensão dos grupos observados, verificando-se, a partir dessa década, que 86% dos avistamentos se referem a grupos de 1 ou 2 lobos, enquanto, anteriormente, apenas 39% dos avistamentos citavam grupos com essas dimensões. A maioria dos avistamentos registados dizem respeito a lobos adultos, mas existem 3 referências a lobos com crias. Os mesmos inquiridos que referem avistamentos de lobos adultos com crias dão conta de antigos locais de criação. Uma das informações refere-se a “covas entre os penedos perto de Baião”; a outra a “luras debaixo dos penedos virados a Loivos do Monte (Baião)” e a última, e mais exacta, aponta o “Monte da Aldeia” (Amarante). As primeiras duas referências a locais de cria reportam-se, segundo os inquiridos, “há mais de 5 anos”, o que as situaria em anos anteriores a 1998, presumivelmente no ano de 1997, data que, de resto, é coincidente com os dados obtidos pelos técnicos do Parque Natural do Alvão (Costa, com. pess.). A última referência diz respeito ao ano 2000, e/ou possivelmente 2001, tendo o inquirido revelado pormenores credíveis relativos aos períodos de avistamentos de crias (Agosto/Setembro) e à audição, pela mesma altura, de uivos “grossos” misturados com “ganidos”, o que parece indiciar a ocorrência de reprodução no seio deste grupo familiar nesse(s) ano(s).No que diz respeito a lobos mortos em anos recentes (de 1980 em diante), para além de várias referências a batidas infrutíferas ao lobo na serra, ainda na década de 1980, os inquéritos aludem a um único lobo morto, supostamente a tiro, em 1996. Relativamente à utilização de venenos, apenas 4 inquiridos demonstraram ter conhecimento sobre a utilização de veneno (estricnina) na área da serra da Aboboreira, tendo, segundo estes, a sua utilização sido regular até ao início da década de 1980, tornando-se pontual e pouco comum a partir dessa altura, devido à dificuldade na sua obtenção. Nenhum dos inquiridos revelou ter conhecimento de situações de lobos mortos com recurso a veneno.Quanto aos prejuízos causados pelo lobo nos animais domésticos, cerca de 67% dos entrevistados revelou já ter sofrido prejuízos no gado, causados por ataques de lobos. Destes, 76% revelou ter perdido mais de 5 cabeças de gado, enquanto 24% diz ter perdido entre 1 e 2 cabeças de gado. Os ataques mais recentes terão ocorrido há cerca de 3/4 anos, embora 83% das respostas refira a ocorrência dos ataques num intervalo longo de tempo compreendido entre 1970 e 1990. Apenas 10% dos casos se referem a períodos anteriores a 1970. A localização dos ataques, tal como os avistamentos de lobos, varia de inquérito para inquérito, embora aqueles coincidam, grosso modo, com os locais onde se verificaram a maioria dos avistamentos. De todos os prejuízos recentes, posteriores a 1990, apenas 2 foram comunicados às autoridades. Por forma a apresentar um quadro o mais aproximado possível com a realidade, os resultados dos inquéritos foram cruzados com as informações obtidas pela prospecção através de Índices Quilométricos de Indícios de Presença. Com o intuito de detectar a presença do lobo e determinar a sua distribuição actual e, dessa forma, estabelecer uma eventual correlação com os dados dos inquéritos relativamente aos avistamentos de lobos e indícios de reprodução, prospectou-se uma vasta área da serra, nomeadamente aquela compreendida entre as 5 aldeias-alvo, a área do planalto central e as vertentes nordeste, este e sudeste. Foram delimitados 11 percursos, com extensões que variaram entre 1 km, no caso do percurso mais pequeno, e os 6,5 km, no caso do mais extenso. No conjunto, foram prospectados 27,1 km de caminhos e estradões de terra, em cada 11 percursos realizados mensalmente, num total de 325,2 km ao longo de 12 meses. Os percursos foram realizados a pé, e repetidos ciclicamente, todos os meses. A repetição mensal de todos os percursos permitiu assinalar oscilações significativas na densidade populacional durante o período de estudo e, simultaneamente, detectar as áreas com maior índice de ocupação e aquelas onde a presença nunca se verificou. Assim, foi possível constatar para os meses de Outubro e Novembro, um Índice Quilométrico relativamente elevado, valor esse que diminuiu durante o período de Inverno (Dezembro, Janeiro e Fevereiro). Os valores mais baixos registaram-se durante a Primavera e o Verão (Tabela 1). Com base nestes dados, foi possível determinar uma época de maior densidade demográfica, o Outono e parte do Inverno, e uma outra, que corresponde ao período da Primavera e do Verão, em que os lobos praticamente deixam de utilizar estes espaços. Por outro lado, a análise individual dos percursos permitiu assinalar duas áreas com níveis de ocupação distintas: uma primeira, que grosso modo corresponde ao planalto central da serra, onde os indícios revelam uma contínua, ainda que fraca, ocupação do espaço; e uma segunda, que engloba toda a vertente voltada ao Marão e à serra do Castelo, onde se verifica que a ocorrência de lobo é esporádica e muito localizada no tempo. Cruzando os dados dos Indícios de Presença, com os elementos contidos nos inquéritos, é possível determinar que as áreas apontadas nos inquéritos como mais propícias a avistamentos se confirmam como áreas onde o lobo, de facto, está mais presente e durante períodos de tempo mais longos, sobretudo durante o Outono e o Inverno. Este facto, se, por um lado, pode apontar para uma ocupação mais intensa de zonas periféricas da área vital desta alcateia, uma vez que durante o Inverno os animais tendem a alargá-la, abrangendo espaços onde a sua presença não se faz sentir durante o resto do ano (Mech, 1970); por outro, permite supor a eventual ocorrência de reprodução no seio deste grupo familiar em 2002. Uma vez que o pico populacional se alcança precisamente nesse período, após os partos (Álvares, 1999; Álvares, et al., 2000), o elevado número de indícios de presença, registados na área de estudo durante o Outono, e a sua significativa diminuição ao longo do período temporal subsequente (Inverno), constituiria, não apenas um indício para o aumento do número de animais nesta alcateia, como apontaria para uma possível ocorrência de baixas nos meses seguintes, facto que poderá ter feito perigar a eventual reprodução deste grupo em 2003 (Álvares, com. pess.). No que diz respeito aos avistamentos mais recentes e que dão conta, quase sempre, de 1-2 lobos, tal parece coincidir com a densidade populacional verificada pela quantificação através dos Índices Quilométricos de Indícios de Presença, já que o grupo familiar existente não deverá ser numeroso (2-3 lobos), uma vez que se localiza numa área bastante humanizada e, por isso, mais sujeito à perseguição humana. Na realidade, a alcateia Aboboreira, à semelhança de outros grupos familiares localizados em zonas de distribuição limítrofe da espécie, pelo facto de constituir uma população marginal, no extremo sul da área de distribuição da espécie a norte do rio Douro, é mais vulnerável e, portanto, mais sujeita a flutuações do seu efectivo, sendo o número de indivíduos menor e a ocorrência de reprodução mais irregular (Álvares, et al., 2000). Com efeito, o lobo necessita de grandes espaços para sobreviver, comportando cada alcateia um território que engloba vales e partes altas de várias serras (Álvares, 1998), variando a dimensão desses territórios (entre 150 e 300 km²), de acordo com diversos factores, entre os quais a qualidade do habitat, a disponibilidade de alimento e o grau de perturbação causado pela actividade humana. Ora, no caso do núcleo lupino da Aboboreira, a reduzida disponibilidade alimentar que se verifica, tanto pela escassez de presas selvagens, como pela diminuição dos efectivos pecuários ao longo das últimas décadas, aliada à crescente humanização da paisagem (ex: construção de novas estradas – IC26 Amarante-Mesão Frio e continuação da A4 pelo Marão como opção ao IP4), parece influir negativamente nesta população, embora com a escassez de conhecimentos actualmente existentes sobre este núcleo populacional tão importante, não apenas por ser o único que conecta directamente com o rio Douro, e, por isso, poder constituir um elo de ligação com as debilitadas populações lupinas a sul do Douro, mas também pelo facto de constituir uma das últimas, senão a última, alcateia do Distrito do Porto, a situação se afigure complexa e de difícil gestão.

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